"Diário de Sorocaba", em 13/09/2014
Trabalho de restauro do Mosteiro está concentrado no interior da igreja de Sant'Ana
(Foto: Fernando Rezende)
PATRIMÔNIO HISTÓRICO
Erguido na segunda metade do século XVII (a Capela ou parte desta, o atual Presbitério, onde está o altar-mór, data do próprio ano de fundação do Povoado de Nossa Senhora da Ponte de Sorocaba pelo bandeirante Baltazar Fernandes, em 1654), no coração de Sorocaba, o Mosteiro de São Bento é a construção mais antiga da cidade. Tombado pelo Conselho Estadual de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Arquitetônico e Turístico (Condephaat), o prédio com paredes de taipa de pilão acompanhou o desenvolvimento da `Terra Rasgada' e, hoje, passa por um processo de restauração. Ao seu redor, foram instalados comércios, prédios comerciais e residenciais que contrastam com sua arquitetura e evidenciam sua beleza.
O projeto de recuperação do conjunto arquitetônico do Mosteiro de São Bento teve início em 2004 e não há prazo para ser concluído. Isto porque trabalho é minucioso e feito a partir de verbas obtidas junto aos governos federal e municipal, recursos provenientes de empresas através de legislações de incentivo cultural e doações captadas pela Associação Amigos de São Bento. O monge beneditino responsável pelo local, dom José Carlos Camorim Gatti, OSB, explica que existe um protocolo de intenção junto ao Mosteiro de São Bento, de São Paulo, que permite a empresa Novata Engenharia, que realiza o restauro, a fazer a captação de recursos para as obras de restauro. Mas a partir da criação da Associação de Amigos o processo foi intensificado. Ao todo, já foram investidos R$ 1,5 milhão, proveniente da Lei Rouanet, doações de empresas, associados, da União e da Prefeitura, que destinou cerca de R$ 500 mil. O valor repassado pelo Município chega em parcelas e, desde maio, já foram feitos dois depósitos.
Dom José Carlos destaca ainda que a deputada federal Iara Bernardi (PT) também obteve, através de emendas parlamentares, um montante de R$ 800 mil, esperados para chegar no próximo ano. "Esses recursos serão enviados à Prefeitura, que os encaminhará para o Mosteiro. Já foi realizada uma reunião e o Município se comprometeu a fazer o repasse", asseverou o monge, enviado à cidade em 2001 pela Abadia de Nossa Senhora da Assunção, de São Paulo, da Ordem de São Bento, para ser o responsável pela restauração do Mosteiro local. Ele, porém, não carrega para si toda a responsabilidade e destaca o trabalho de todos os envolvidos: "Nunca imaginei que sairia de São Paulo. Sou dentista, então restauro para mim é algo comum", brinca. "No início, disse que se em três meses não acontecesse nada, mudaria de planos. O abade da época veio até aqui e eu disse que todos queriam a restauração, mas nada começa. Então, expliquei a situação aos fiéis e passamos a rezar uma Ave Maria, em agradecimento, ao fim de todas as missas, pois tinha certeza de que Ela iria interferir. A partir disso, tudo começou a dar certo".
RESTAURAÇÃO - O primeiro passo da restauração foi contratar artistas da Capital para fazer a prospecção do Mosteiro, que contém os detalhes originais e é a base para o trabalho. Em seguida, foi realizado um processo para exterminar os cupins. Algumas etapas já foram concluídas, como a ampliação da hospedaria, que conta com seis quartos e banheiros individuais, cozinha, lavanderia, sala de estar e jantar, assim como o restauro de dois claustros e o casarão da esquina do largo de São Bento com a rua Dr. Arthur Martins, sede do Espaço Cultural "São Bento". Assim como acontece na Europa, dom José Carlos sonha, aliás, que o Espaço "São Bento" torne-se um ponto turístico da cidade e arrecade fundos para a sobrevivência do Mosteiro.
Atualmente, cerca de 10 trabalhadores se dedicam diariamente aos serviços de restauro no interior da igreja de Sant'Anna, fechada para atos religiosos desde o final do ano passado. As imagens religiosas foram cobertas e outras peças retiradas para serem preservadas. A sala que fica ao lado da igreja - e abriga temporariamente livros da biblioteca - funcionará como sacristia, onde haverá uma escada para facilitar o acesso ao coro.
O retábulo da igreja, com detalhes em ouro, também terá de ser restaurado, mas o orçamento de 2005 terá de ser refeito, por isso não é possível dizer o quanto precisará ainda ser investido. Em várias paredes, há `janelas' onde o reboco foi retirado quase que cirurgicamente, para observar a situação da taipa. O monge frisa que a estrutura não pode ser aberta, somente se não for original. E foi assim que durante os trabalhos descobriram uma passagem de ar, chamada por dom José Carlos de `ar condicionado do século 17'. "Quando estavam no claustro, removendo o reboco, havia um barro diferente da taipa. Pedi para que retirassem e havia uma passagem, um respiro para a igreja ter ventilação", conta ele.
Durante esses anos todos, a parte frontal da fachada se movimentou, distanciando o forro das paredes. Foi necessária uma operação para mantê-la sustentada, com o uso de fios de prumo e cintas instaladas em meio à estrutura.
UM MOSTEIRO A SERVIÇO DA COMUNIDADE - Devido à sua importância histórica e arquitetônica, todos os meses o Mosteiro de São Bento é visitado por universitários, principalmente estudantes de Arquitetura e Urbanismo. Em junho, um grupo da Pontifícia Universidade Católica (Puc) de Campinas doou uma maquete do Mosteiro. Enquanto a restauração não é concluída, as missas são celebradas em capela improvisada ao lado do Mosteiro, de segunda-feira a sábado, às 7 horas; também aos sábados, às 18 horas, e aos domingos, às 9 e 11 horas.
As confissões ocorrem às quartas e sextas-feiras, das 9 às 11 e das 14h30 às 17 horas.
Os interessados em fazer doações à restauração podem ir pessoalmente ao Mosteiro de São Bento, procurando por dom José Carlos, ou ligar no telefone (15)3232.8206.
Para integrar a Associação Amigos de São Bento, é necessário preencher um formulário e escolher a opção de doação, feita através de boleto bancário.
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