sexta-feira, 20 de março de 2020

UMA ONÇA ATRAVESSOU O CAMINHO DE LUIZ ALMEIDA

Onça-pintada é filmada em parque perto do litoral paulista.
Rara na Mata Atlântica, espécie foi flagrada por empresário; mais de 20 onças são monitoradas na região.
Por Giulia Bucheroni, Terra da Gente
18/03/2020 


Empresário flagra onça-pintada no Parque Estadual Carlos Botelho (SP)
“Fiquei tão emocionado quando a vi que até esqueci de ter medo”. Essa é a frase que resume o encontro do empresário Luiz Almeida com uma onça-pintada na estrada do Parque Estadual Carlos Botelho (SP), entre as cidades de Capão Bonito, São Miguel Arcanjo, Sete Barras e Tapiraí.
O flagrante foi feito na noite de ontem (17), quando retornava de uma reunião em Registro (SP). “Eu passo nessa estrada desde 1973, pois trabalhava no Vale do Ribeira. Já vi de tudo ali: cobra, aranha, sapo, saracura, macacos, tucano, coruja. Mas nunca esperei encontrar uma onça-pintada”, conta o empresário, que admirou o felino a menos de 10 metros de distância.
Foi extremamente emocionante. Eu fiquei uns 30 segundos admirando a onça pra depois lembrar que eu tinha um celular. Aí eu lembrei e foi aquela correria para tirar fotos e filmar
— Luiz Almeida, empresário.
Na expectativa de garantir um registro com mais qualidade, Luiz até desceu do carro, mas o felino rapidamente entrou na mata. “Eu já tive muitos encontros maravilhosos com animais, como o lobo-guará, por exemplo. Mas sem dúvida a observação de uma onça-pintada supera tudo”.


O Parque Estadual Carlos Botelho conecta importantes remanescentes da Mata Atlântica — Foto: Divulgação Acervo PECB

Casa protegida
Assim como Luiz, os pesquisadores responsáveis pela Unidade de Conservação Carlos Botelho comemoram o flagrante. Afinal, a presença do felino é um indicativo de que a área está preservada.
“A onça é predador topo de cadeia e, para as populações subsistirem, elas precisam estar em ambientes extensos e bem preservados. Quando o felino é encontrado no miolo de unidades como o Parque, significa que ele tem recursos para se alimentar e desenvolver atividades sociais e reprodutivas”, explica o médico veterinário Pietro Scarascia, que destaca outras observações feitas na região.


As áreas preservadas do Parque abrigam a maioria dos mamíferos típicos do bioma — Foto: Divulgação/Acervo PECB
“Aqui é comum encontrar mamíferos de médio e grande porte, porque estamos falando de uma área com aproximadamente 40 mil hectares de Mata Atlântica com alto grau de preservação. Temos remanescentes primitivos de floresta, que proporcionam a ocorrência de onças, antas, queixadas, catetos, veados, jaguatiricas, gatos-do-mato e gatos-mourisco, por exemplo”.
Fundado em 1982, o Parque (que pertence aos municípios de Capão Bonito, São Miguel Arcanjo, Sete Barras e Tapiraí) é um importante refúgio da vida selvagem da região sudeste do Estado de São Paulo, e um dos mais significativos corredores ecológicos que conecta importantes remanescentes da Mata Atlântica do Brasil.


O Parque possui área com aproximadamente 40 mil hectares de Mata Atlântica — Foto: Divulgação/Acervo PECB
De acordo com o gerente do Parque, as populações de onças-pintadas no interior da Unidade de Conservação e de todo o mosaico do Paranapiacaba variam de 20 a 30 indivíduos, monitorados há 14 anos pela pesquisadora Beatriz Beisiegel. “Recentemente a Fundação Florestal produziu um folder de divulgação das onças dessa região. Graças ao padrão de pintas dos felinos é possível individualizá-los, o que nos permite determinar padrões de deslocamento, áreas de uso e atividades de cada um deles”, comenta.
Pietro explica que ainda não foram feitas análises conclusivas para saber se a onça registada na última terça-feira é um indivíduo conhecido pelos pesquisadores. De qualquer forma, o flagrante é importante para projetar atividades em prol da conservação da espécie.
“A partir de hoje vamos intensificar o programa de Educação Ambiental junto aos usuários da estrada e focar na questão da onça, mostrando todos os cuidados que devem ser tomados em situações como essa. Porém, com a questão do COVID temos que ter muita cautela para planejar um programa bem estruturado, sem expor demais as pessoas”, completa.


Estrada parque fica fechada durante a noite para garantir a travessia segura da fauna local — Foto: Divulgação/Acervo PECB

Estrada movimentada
Pietro também fala da importância em discutir novas regras para o funcionamento da estrada-parque, visando a proteção dos animais que vivem na região. “Os gestores da unidade já haviam decretado o fechamento noturno da estrada, entre as 20h e as 6h. No entanto, pesquisas com onças e antas revelam que os animais circulam na estrada em períodos anteriores às 20h, por isso, seria interessante antecipar ainda mais o fechamento. Essa é uma questão que deve ser colocada em pauta nas próximas reuniões”, explica o veterinário, que destaca ainda outro projeto a ser colocado em prática.
“Também vamos estudar a possibilidade de fazer um levantamento de todos os locais de trânsito da onça, para instalar redutores de velocidade imperativos na estrada”, finaliza.
G1

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