Ontem, quando o Braz da banda chegou em minha casa - ele sempre passa por aqui - batemos um longo papo relembrando a banda daqui e de fora.
Como o assunto lhe agrada demais, e eu sei bem disso, resolvi homenageá-lo; procurei no You Tube diversas corporações musicais do interior e ficamos ali a ouvir e a relembrar um passado que não volta mais nem para ele e nem para mim, que também aprendi a tocar o prato, a bateria, o triângulo, a meia-lua, o pandeiro quando comecei a participar da banda lira de São Miguel Arcanjo.
Deliciamo-nos ouvindo Bandas de Pilar do Sul, Piedade, Itapetininga, Capão Bonito, Cesário Lange, Sorocaba, Iguape, etc. Desde canções populares até hinos e dobrados.
Foi então que o Braz lembrou do grande João de Sales, maestro da banda Dois de Abril, de Capão Bonito.
Certa vez, Joaquim dos Passos e Oscar Arrivabene foram nomeados festeiros da Festa de São Miguel Arcanjo, padroeiro da cidade.
Como não havia na cidade, o Oscar contatou o Braz da banda a fim de buscar a banda de Capão Bonito para tocar aqui.
Para Capão seguiram de carro o Braz e mais dois músicos - sempre havia músicos que aguardavam o dia em que a banda retomasse seu rumo.
Pararam em frente da loja do diretor da banda, o José Martins, e perguntaram pelo maestro João de Sales.
José Martins respondeu que o maestro estava meio entregue, muito doente, com problemas no coração.
Mas mesmo assim, São Miguel pôde contar com a banda Dois de Abril naquela festa do padroeiro.
João era filho de Joaquim de Sales Guimarães, apelido Nezinho; foi este quem fundou a banda de São Miguel em 1961 e ficou por aqui ensaiando a turma durante um ano, sempre às terças e sextas feiras, passando a batuta para o maestro Pedrão.
Braz conta então o final da história da vida do João de Sales.
Um dia que não haveria ensaio da banda, João disse para a mulher que iria até à Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, para ensaiar o coral; ficava ali pertinho de casa mesmo.
Ele foi.
Começou a ensaiar o órgão, passando as mãos, limpando as teclas, um som bonito e majestoso cobrindo todo o ambiente no interior da igreja, no aguardo da mulherada do coral que chegava de mansinho uma, duas, quatro...
De repente, um som mais alto, como se uma das telas tivesse se soltado daquele órgão tão amado pelo João...
Não, não era, não.
Era o corpo do João de Sales que tombara sobre o instrumento, silenciando de vez por todas as vozes que se juntavam ali dentro para o ensaio do coral.
Estava morto o João de Sales, maestro que veio lá de Guapiara para morar em Capão Bonito.
Emocionado, o Braz da banda, 74 anos, se cala e enxuga umas lágrimas.
Muitas lembranças...
Nenhum comentário:
Postar um comentário