domingo, 1 de abril de 2012

SÃO MIGUEL ARCANJO ANIVERSARIA HOJE - V


UMA HISTÓRIA REAL – A EMANCIPAÇÃO POLÍTICO-ADMINISTRATIVA DO MUNICÍPIO
(Relatada pelo Major Luiz Válio, sob o pseudônimo J. SEVERO, conforme pesquisas em periódicos da época). 


A história da fundação de nossa cidade é tão bela e cheia de lances heroicos que, em confronto, ultrapassa tudo quanto se tem escrito a respeito da fundação de São Paulo de Piratininga. 

Por isso, depois de conhecidos os tópicos do decreto 20.348, o clamor de todos os são-miguelenses era, e com muita razão, o que serve de epígrafe:- “Não queremos retroceder”. 

Obtida a nossa independência do “jugo” itapetiningano em 01 de abril de 1889, pela lei 86 da mesma data, o novo município caracterizou-se pela altivez com que, por muitos anos, soube manter-se, numa atitude digna, promovendo a sua prosperidade a golpes de audácia, tal como fez no período anterior, quando teve de enfrentar a luta formidável movida pela edilidade da terra de Venâncio Aires contra as suas aspirações liberticidas. 

Por espaço de quase dois anos o povo desta terra lançou mão de recursos de todo gênero, legais e até absurdos para obter o seu ideal. 

Entre eles figuram alguns dignos de serem agora lembrados e são os seguintes: 

Os são-miguelenses precisavam de uma informação da Câmara de Itapetininga sobre o número de prédios existentes no perímetro urbano da freguesia e o número aproximado dos habitantes do distrito. 

Para esse fim, mandou-se um emissário à sede, levando a petição e o questionário a ser preenchido. 

Apresentados os “papéis” à Câmara em plena sessão, esta, depois de uma discussão em que mais se tratou de ridicularizar o “povoado” do que de atender ao pedido dos seus habitantes, negou a informação e indeferiu o requerimento. 

Ali mesmo, tendo tudo presenciado, o nosso emissário, de posse dos papéis menosprezados, num ímpeto que bem traduziu o ideal de rebeldia de um “povo oprimido”,picou-os em dezenas de pedaços, atirando-os “por sobre as cabeças estupefatas dos nobres edis”.Assim procedendo, o nosso emissário “riscou o recinto da Câmara com as rosetas de suas enormes chinelas e saiu praguejando injúrias e maldições”. 

Indignado com tal procedimento, o povo da freguesia procurou obter a proteção de Campos Sales, deputado republicano, endereçando-lhe uma fogosa representação. 

Campos Sales prometeu patrocinar a causa e pediu que se fizesse um abaixo-assinado monstro, a fim de ser por ele apresentado à Assembléia provincial. 

O abaixo-assinado remetido a Campos Sales foi subscrito por todos os habitantes de São Miguel Arcanjo, tanto pelos homens, mulheres e crianças, como pelos mortos e os que ainda estavam por nascer. 

Com este documento, Campos Sales, no penúltimo dia de encerramento do Congresso, em dezembro de 1888, prevalecendo-se da acumulação de serviços, passou o blefe nos itapetininganos, obtendo a elevação de nossa freguesia a município independente. 

Não se pode imaginar a grande satisfação que se apoderou do povo, com a sua independência realizada e em via de estabelecer o domínio municipal quase absoluto, para poder aplicar com parcimônia proveitosa, os vastos rendimentos fiscais na grandeza de sua própria terra, tão necessitada de melhoramentos de ética administrativa e de estética prática para a formação da grande metrópole ideada para um futuro embora remoto. 

O nosso céu, como que colaborando com a alegria imensa provocada pelo feliz acontecimento, parecia radiantemente belo naquele dia de festas da vitória. Os semblantes, tanto dos homens, como das mulheres e crianças, de carrancudos que eram pelas constantes investidas falhas transformaram-se em semblantes joviais, onde se notava a exteriorização completa dos mais íntimos sentimentos de felicidade. 

Entretanto, nos horizontes do porvir, notava-se ainda uma tênue mancha, precursora de tempestade próxima. 

É que não estava tudo feito e, para se chegar ao fim da obra gloriosa, teríamos de transpor duríssimos penhascos pontiagudos e de difícil acesso. 

Itapetininga informou ao governo que São Miguel não possuía sequer um edifício ou sala particular onde pudesse ser instalada a Câmara, isto é, o seu Governo Municipal. 

Já tínhamos algumas casas regularmente construídas e outras que se encontravam em estado adiantado de construção, com comodidades amplas, como, por exemplo, a casa de Evaristo Arantes de Noronha, pai de Thomaz Mário, Agobardo e senhora Maria Marieta, membros da importantíssima família Noronha, oriunda de Minas Gerais e de nobre hierarquia portuguesa, bem conhecida na história. 

Mas para que se instalasse o Governo Municipal em uma casa particular, por melhor que fosse, seria preciso que a índole do povo são-miguelense fosse de outra têmpera e que esse povo não zelasse bastante do seu brio. 

Não! 

- A Câmara teria de funcionar em prédio próprio, diziam os próceres da situação, custe o que custar! - 

Não havia, entretanto, onde lançar mão à busca de recursos para o fim desejado, porque as rendas municipais ainda seriam arrecadadas por Itapetininga enquanto aqui não houvesse governo constituído. 

Como último recurso, aventou-se a ideia de promover uma subscrição popular, obtendo-se assim, o capital necessário para a construção do edifício. 

O Governo Provincial havia, há tempos, adquirido, pela importância de cento e poucos mil réis, o prédio que servia então de cadeia pública. 

Um aumento lateral, acrescentado naquele, rigorosamente feito de acordo com todas as leis da estética, parecia resolver o grave problema e, se isto foi pensado, não demorou também a ser posto em prática com fervoroso entusiasmo. 

A circunscrição correu o pessoal da Vila e este, acudindo ao pedido, não se fez rogar para contribuir com o seu apoio pecuniário. Em poucos dias a subscrição alcançava a importante soma de 600$000, julgada bastante, segundo o orçamento de hábil empreiteiro para a construção do edifício. 

Em poucos meses as obras ficaram prontas. 

O edifício citado foi construído na Rua do Comércio, nele funcionando a Câmara Municipal do triênio que se findou em 1913. 



O EMISSÁRIO PEDRO LEME 

Em 12 de abril de 1.928, na “Tribuna Popular”, o mais famoso órgão de imprensa de toda a região, editado em Itapetininga, Theophilo de Souza Carvalho lembrava-se de Pedro Leme Brisolla como uma das figuras a quem a história da elevação de São Miguel à Vila se acha intimamente ligada. 

Foi ele o emissário, o agente, o veículo de toda aquela negociação que se operou em torno do caso. 

Indivíduo enérgico, excessivamente bairrista, Pedro Leme chegou ao extremo de devotamento pela causa que abraçou com os seus conterrâneos, e só se deu por satisfeito quando os jornais lhe trouxeram a grata e importante notícia da promulgação da lei no. 86, de 01 de abril de 1.889, criando a Vila de São Miguel Arcanjo e sua respectiva Câmara Municipal. 

Reportando um pouco àquela época, de acordo com o historiador Luiz Válio, o J. Severo, que deixou seus escritos impressos no ‘O Progresso’, chega-se naquele nefasto dia de sessão na Câmara Municipal de Itapetininga; os vereadores todos reunidos para os trabalhos normais. 

Foi então que assomou à porta o vulto de um indivíduo sobraçando um rolo de papéis envolto num lenço de alcobaça. 

Era Pedro Leme que, arrastando as esporas pela sala, abeirou-se da mesa e pediu permissão ao presidente para apresentar um requerimento que trazia do povo de São Miguel Arcanjo, antigo Bairro da Fazenda Velha de Itapetininga. Informações essas que deveriam ser enviadas para São Paulo. Eram alguns dados que faltavam para o prosseguimento do processo de emancipação política, um sonho já acalentado durante algum tempo pelos moradores do local. 

O secretário leu o documento. 

Alguns senhores riram, fazendo nascer a ira em Pedro Leme, cuja face tornou-se assustadora. 

Calmamente, o presidente julgou a petição objeto de deliberação, fez consulta à mesa sobre se deveria confirmar as informações já remetidas para a Capital ou elaborar outras mais a contento dos “libertários da Fazenda Velha”. 

A mesa foi unânime em confirmar os dados anteriores, declarando que achava extemporânea, ineficaz e absurda a ideia de elevação de São Miguel a Vila. 

Para a Capital haviam sido enviadas informações dizendo que a referida Fazenda Velha não passava de um excelente criadouro de porcos e cabritos, animais estes que vagavam pelas ruas com a mais ampla liberdade, sendo esse fato, por si só, um depoente contra todas as aspirações de um povo civilizado. 

Especificado o despacho, o presidente da Câmara lançou o jamegão sob um terrível “INDEFERIDO” e o requerimento foi entregue ao secretário que, sorrindo, o passou às mãos de Pedro Leme...que nem estava mais ali, pois havia se metamorfoseado em outra pessoa, ou melhor, num animal parecido com um tigre, o qual, passeando pela sala, arfava, suando feito suíno, deixando ouvir-se ali apenas o eco de seus passos e o tinir das rosetas da sua “chilena” que descrevia uma linha pontuda sobre o assoalho de belíssimas taboas de peroba. 

O presidente, assustado, tocou a campainha seguidas vezes a fim de tirar Pedro Leme daquele transe. Finalmente, o homem estendeu os braços, recebendo com mãos trêmulas o malfadado papel que continha um despacho que não era um simples despacho, mas...uma bomba de dinamite! 

Ainda tonto, o emissário daquele povo espezinhado em suas intenções, deu algumas voltas com os papéis que lhe queimavam as mãos e o corpo todo e, num ímpeto que bem traduzia o ideal de rebeldia de um povo oprimido, dirigiu-se para os senhores edis, desandou-lhes tremenda descompostura e picou em dezenas e dezenas de pedacinhos aqueles papéis, atirando-os por sobre as cabeças estupefatas dos nobres edis. 

Em seguida, Pedro Leme saiu dali praguejando injúrias e maldições como um trovão. 

Por um momento, um sopro de morte preencheu a sala e enrijeceu os senhores ali presentes. 

“Uma barbaridade!”- exclamou o presidente. 



OBS: Pedro Leme Brisola era, no ano de 1.866, ao lado de Arthur Monteiro, Luiz Castanho, Major Monteiro, Maximiano, Edmundo Trench, Gabriel Dias e Paulininho Aires, um grande intelectual e artista amador na cidade de Itapetininga. Foi ele quem ainda emprestou sua residência para a reunião de fundação do Gabinete de Leitura ‘José de Alencar’, também de Itapetininga, e nesse dia escolhido para ser orador (na diretoria provisória) e segundo orador na primeira diretoria definitiva. 

Este gabinete de leitura deu origem ao famoso Clube Recreativo ‘Venâncio Ayres’ no ano de 1.888.


SÃO MIGUEL ARCANJO ANIVERSARIA HOJE - I V



DE OUTROS INTELECTUAIS - uma pequena amostra
                              
"INVOCAÇÃO" 
(Texto de autoria do cidadão Aparício de Oliveira Terra) 

No lugar desta cidade, 
antigamente, 
deve ter existido, 
certamente, 
umas palmeiras e muitas árvores, talvez todas de flores, 
e a campina verdejando... 
Manhã de sol, de orvalho cintilando, 
manhã sublime do sertão daquele tempo. 
Uns homens vindos das Minas, lá de longe, 
vencendo a encosta, 
fincaram neste ponto a Cruz - a primeira erguida no sertão. 
Honrados fundadores, 
homens de ontem, 
que soubestes começar para hoje, 
estamos no vosso mesmo ardor 
construindo o amanhã para a nossa cidade 
que resistiu e cresceu. 
Homens vieram da terra dos cedros, 
da ilha encantada, 
do Monte Fuji. 
Numa luta que a Fé recomenda, 
vossos filhos unidos estão, 
com o povo todo, 
por todo o povo. 


"HINO A SÃO MIGUEL" 
(de Adelina Mazagão Alcover, nos anos 70 preencheu a lacuna pela falta de um hino oficial que a cidade jamais teve) 

São Miguel Arcanjo 
Dileta cidade 
Cultiva o saber 
Na sua mocidade 

São Miguel Arcanjo 
Bondosos os filhos teus 
No céu o teu nome é lembrado 
E sempre abençoado por Deus. 

São Miguel Arcanjo, 
Altaneira e viril, 
És parte integrante, 
Do nosso Brasil. 

"SAUDAÇÃO À CIDADE" 
 (Poema de autoria do professor de português Arthur Augusto Antonio por ele ofertado à cidade por ocasião dos 84 anos de emancipação político-administrativa) 

“No transcurso da vida, no correr da idade, 
Nosso povo, a criança e estudantes ufanos, 
Perpetuam a alegria para a eternidade, 
Pois que neste momento a cidade faz anos... 

Tão sincera, espontânea, a homenagem prestada, 
Vem repleta de bênçãos nas asas de um anjo; 
Bênçãos mil que inundam minha cidade amada, 
Minha simples e amiga São Miguel Arcanjo.” 


"SÃO MIGUEL ARCANJO" 
(autoria de Orlando Leme Pinheiro) 

“Muitos não viram a banda do Moinho 
Que tocava na praça em noite de festança 
Lembro-me bem, eu era pequenino, 
Guardei aquele som na minha mente de criança. 

Na velha praça naquele tempo havia 
Um enorme carvalho...mas há tempo se acabou. 
Lembro-me ainda...a mocinha que sorria 
Mas o tempo veio e esse sorriso apagou. 

Lembro a capela velha, humilde e pequenina 
Agasalhando em seu refúgio aos fiéis. 
Quando a lua branca lá no céu menina 
Enfeitava a noite dos velhos coronéis. 

Lembro o tropeiro cansado da jornada 
Contando à garotada sua façanha 
E gravei comigo, como toda petizada, 
O que houve daquele herói de era antanha 

Ao velho Grupo me levaram um dia 
Aprender o a,b,c, e principiar a ser doutor. 
Tiritante venci toda manhã mais fria 
Até que veio o meu primeiro amor. 

E o tempo foi passando, foi passando, 
Foi crescendo a minha São Miguel Arcanjo 
Mas cresça, Terra minha! 
Com a saudade me arranjo. 

Da velha banda inda tenho no ouvido 
A melodia da valsa, da polca e do dobrado. 
“Branca”, “Sobre as Ondas”, tão querida, 
e a preferida “Canção do Soldado”. 

Hoje, São Miguel, seus dias transformaram 
Em passos de gigante audaz, seguro. 
De todas as saudades a recompensa 
É o bem que se recebe no futuro.” 

"TRIBUTO À CIDADE"
( autoria da professora Marilene Costa Serafim Sanchez – publicada em jornal local em abril de 1.995) 

“São Miguel Arcanjo, 
Capital da uva Itália, 
Dentre muitas cidades do Brasil, 
São Miguel é jóia rara. 
Conhecida em todo mundo 
Pela sua grande produção 
São Miguel é luz, é vida, enfim, 
É orgulho da nação. 
Salve! São Miguel Arcanjo 
A voz dos anjos se ouve 
Lá dos céus abençoando 
Esta terra santa 
“Favo de mel”. 
Desde os tempos das colônias 
Tantos povos, raças, tradições. 
São Miguel nasceu da fé, 
Do amor, da batalha e do labor! 
Salve São Miguel Arcanjo – bis.” 

"HINO A SÃO MIGUEL ARCANJO" 
(autor: Miguel Terra)

“São Miguel altaneira cidade 
De um povo que emana da paz 
De Urias e seus descendentes 
Quem te viu, quem te fez, quem te faz. 

O Arcanjo protege o teu povo 
Dia a dia com todo esplendor 
Nossa história te mostra guerreira 
Tens saúde, alegria e amor. 

São Miguel Arcanjo é de todos 
e todas as raças são bem-vindas 
onde se irmanam na fé 
na bênção de crenças infindas. 

Surgida de uma capela 
Fazenda Velha se ergueu 
E pelas mãos de Urias 
Bela cidade cresceu. 

Foste antiga Fazenda Velha 
Do verde, dos coqueirais 
Hoje bela Capital da Uva Itália 
És berço pleno dos nossos ancestrais.” 


"HINO A SÃO MIGUEL ARCANJO" 
(autora: Luiza Válio) 

Berço amado de um povo fagueiro 
És sublime; dos céus tens agrado, 
Pois o nome de um anjo guerreiro 
Roga a Deus proteção e regalo. 

No realce das tuas belezas 
Tens a glória de ser sempre vida 
Pelo canto da Mãe Natureza 
Pelas águas que fazem caminhos...... 


"BERÇO QUERIDO" 
(Poema de Miguel Ferreira, o popular Zé das Flores, cantor e compositor) 

“Berço querido 
Meu pedacinho do céu 
Pequena São Miguel 
Doce terra onde nasci. 

Quando te vejo 
Na moldura da lembrança 
Eu de novo sou criança 
Pois jamais te esqueci!” 

"SÃO MIGUEL ARCANJO - AME-O OU DEIXE-O" 
(autor : Germano Garcia Netto) 

De ti que vieste lá das longes bandas 
Por terra, por ar, por mar, aqui buscando 
O aconchego das gentes no mutirão das raças; 
De ti que chegaste em paz cá neste solo novo 

Onde palpita a fé e a bondade existe, 
Nada se exigiu em troca da acolhida 
Hospitaleira da cidade jovem... 
Ninguém cuidou de pedir-te ao menos 

O ‘curriculum vitae’, o retrato austero 
Do teu passado ou dos teus segredos. 
Esta cidade é a integração do homem; 
A miscigenação é um fato, a concórdia alteia, 

A fraternidade universal refulge 
Sob nobre e augusta flâmula alvi celeste! 
Homem d’além, filhos aqui nascidos, 
Ambos sois um só porque sois povo, 
Sois são miguelenses de um porvir gigante. 

Povo, raça, espírito, congregação de esforços, 
O amanhã é amor numa oração de grande. 
O hoje é visão que enaltece o culto 
De civismo autêntico e de brasilidade! 

‘São Miguel Arcanjo! Ame-o ou deixe-o’

SÃO MIGUEL ARCANJO ANIVERSARIA HOJE - I I I



O MAIOR INTELECTUAL DE ONTEM DEMONSTRA SEU AMOR AO LUGAR.      

“Oh! Fazenda Velha querida, berço da minha infância, terra que me viste nascer, como eu te idolatro! 
Tenho saudades da tua velha Ermida, da qual não existem sinais; dos teus prédios de palha, arruinados, que já foram substituídos; dos teus anciãos honrados e nobres, que foram os meus guias e que agora dormem o sono dos justos na mansão eterna; enfim, tenho saudades dos cânticos religiosos de Anna Sampaio e dos terços domingueiros de Jesuíno Gomes; das serenatas do Padre Guerreiro e das procissões magistrais dos domingos de mês; de todas as minhas boas obras e de todas as minhas peraltagens; 
Tenho saudades de tudo, de tudo. 
Mas com o coração cheio de saudades do passado, eu me curvo ante as perspectivas do futuro... 
Ah, como eram magistrais as procissões dos Domingos de mês! Não dá para resistir ao desejo de contar. Essas procissões eram sempre precedidas de outras cerimônias interessantes, bem como de divertimentos profanos que nada deixavam a desejar. 
Os nossos dias de semana eram dedicados exclusivamente ao trabalho, à exceção dos Domingos ordinários que nos proporcionavam o descanso determinado pela Bíblia Sagrada. Mas a véspera do Domingo de mês, à tarde, tinha um não sei quê de mágico, de atraente, de sobrenatural. 
Logo ao chegarmos da roça ou das capuavas, ferramentas ainda às costas, as nossas primeiras investigações pairavam sempre na mesma fórmula do mês anterior: 
- Já deu o primeiro sinal da reza? 
O interesse, portanto, era grande, a ponto de ser a reza de sábado, véspera do Domingo de mês, objeto de indagações por parte de todos os habitantes do bairro! 
Às sete horas, pouco mais ou menos, assomava, garbosamente, à janelinha da Igreja, um tipo alto, de cabelos cor de fogo, cara azulada, nariz adunco, olhos pequeninos e azuis. Esse tipo era o Nhô Vicente, primogênito de Jesuíno Gomes, capelão-mor da Paróquia. 
Em seguida, enrolava na mão direita a corda do badalo do sino, empunhando na esquerda uma grossa chave e as ondas sonoras da atmosfera levavam a todos os fiéis as acres melodias daquele instrumento sagrado! 
Que alegria, meu Deus! Todos nós, a “una voce”, bradávamos: - Temos hoje reza e a festa do mês, amanhã! Deus conserve para sempre Nhô Jesuíno e toda a sua família. 
E Nhô Vicente tornava a repicar o célebre: 
"Galinha leitão 
Sinhô Bispo aí vem"... 
E nós admirávamos aquela música única, para a qual o dito Nhô Vicente tinha uma embocadura admirável! 
A reza constava da “ladainha” cantada, da “glória das virgens” e de outros improvisos de Anna Sampaio, de Anna Vaz e do Capelão. 
No dia seguinte realizava-se a procissão, com andores de São Miguel, de São João e de outros Santos, tendo sempre à frente o andor de São Benedito, para nos preservar das chuvas naquele dia. 
Como não havia música, era cantado o Padre Nosso e o Terço, acompanhados pelo sino, patrimônio exclusivo do Nhô Vicente. 
Recolhida a procissão, tinha lugar o leilão, cuja renda se destinava ao pagamento das despesas dos foguetes, das velas, etc. 
Ah! Queridos leitores, quanta figura fiz eu nesses leilões! Nem desejaria lembrar-me disso. 
Quantos frangos arrematei a um cruzado! Quantas dúzias de ovos a meia pataca! Quantos leitões a três patacas! Quantas pencas de lindos biscoitos a quatro vinténs! 
Mas quantas marmeladas também no lombo ao chegar em casa, com os bolsos abanando...Essas ficam sem contar!" 

(Texto extraído do jornal “O Progresso”, ano de 1.919, de autoria de J. Severo, pseudônimo do Major Luiz Válio). 

SANATÓRIO NATURAL 

‘A nossa cidade, pela sua posição geográfica, pelo seu clima maravilhoso, pelas suas águas cristalinas e puras, acalentada pelo sopro constante da brisa do sul, bem merece o nome de ‘Sanatório Natural’. 
Nunca a nossa cidade foi visitada por epidemias malignas. 
Apenas a gripe espanhola, em 1.918, aqui apareceu, mas foi tão fraca e tão estúpida, que a sua ação redundou num verdadeiro fiasco! Não matou ninguém! 
A tuberculose não medra nestas paragens. Aqueles que, atacados desta terrível moléstia, aqui procuram alívio, muito breve ficam aliviados da própria vida. Apesar de já termos notado desses fenômenos, ela nunca pode contaminar com seus germes pessoas naturais da terra. Nunca vimos pessoas locais morrerem de tal enfermidade. 
Por ocasião de uma festa em Iguape, de lá vieram alguns romeiros trazendo a varíola. 
Pois bem! Eles aqui se trataram em suas casas, ficaram curados em poucos dias, e nem ao menos uma pessoa foi contagiada pela asquerosa moléstia! 
O câncer não é conhecido entre nós. 
Mas, perguntará o leitor, de que morrem, então, os habitantes de São Miguel Arcanjo? 
Na cidade, morre-se de velhice e, raras vezes, de causas ignoradas, em se tratando dos adultos. Jovens de 15 a 30 anos, há muito tempo que não figuram no obituário local. Crianças de 4 anos para menos, para dizer a verdade, morrem por falta de cuidados, em sua maioria, e de verminose, alguns. 
Nos bairros, exceção feita nos casos de ‘estropesia’, mordeduras de cobra e desastres nas derrubadas de matas, todos alcançam bisnetos e tetranetos." 

(Texto do Dr. Ferdinando Cipó, um dos pseudônimos do Major Luiz Válio, no ‘O Progresso’ do dia 22 de fevereiro de 1.931) 

SÃO MIGUEL ARCANJO ANIVERSARIA HOJE - I I



              TERRA DE TANTAS VENTURAS    

Todos cantam e se encantam com sua terra natal. 
Nós também precisamos cantá-la, porque acreditamos que a história de um lugar é a nossa própria história e é justamente por isso que a história que desejamos contar é uma história exclusiva da nossa coletividade, do nosso patrimônio social. 
Nenhum lugar no mundo poderá, em tempo algum, real ou imaginário, apresentar ou conter os mesmos acontecimentos que dia após dia foram determinantes para a nossa vida. 
Por aqui pisaram nossos pentavôs, nossos trisavôs, nossos bisavôs, nossos avós, nossos pais e também nós, um dia, indelevelmente, aqui fincamos nossos pés, quer nascidos no seio de alguma família natural do lugar ou egressa de outras plagas distantes, em busca de um ninho onde repousar a idealização do futuro e da felicidade para começarmos uma nova vida, não sem antes termos exercido o nosso direito de escolha. 
Nesse feito, entrelaçamos nossa genealogia com outras árvores genealógicas, gerando filhos e netos para integrarem-se a uma nova realidade, trançando nossos costumes aos nativos e procurando viver em paz, numa terra que, mesmo não sendo a nossa, a ela fomos destinados em algum momento da nossa vida ou pelo que restar dela. 
O passado atua como um referencial para o presente. 
E esse referencial deve ser resguardado com carinho e fidelidade, pois o progresso de um povo parte sempre do pressuposto de que se o seu patrimônio cultural for preservado, ele vai agir como um forte índice de progresso na somatória geral. 
Antes de mais nada, cuidar desse patrimônio é cuidar de nós mesmos, é tecer diferentes caminhos para a ampliação e solidificação dos nossos horizontes. 
Como se cuidássemos de nossos filhos, por conseqüência, os únicos e legítimos herdeiros de tudo isso. 
Por que a obrigação? 
Porque aqui é o nosso mundo e sendo nosso temos responsabilidade pelo seu destino, buscando ajudar a quem precisa, cuidando do meio ambiente para que nossas crianças cresçam saudáveis, exigindo que todas as autoridades constituídas se obriguem a fazer a sua parte, ensinando a todas as crianças e adolescentes que a cidade não é propriedade de ninguém, mas de todos os moradores, quer da zona urbana, quer da zona rural; desde a criança que acabou de nascer até aqueles que deram suas vidas para vê-la habitada por gente feliz e saudável. 
Neste ato de amor, que "plantemos sempre o caroço da renovação em suas terras para que o futuro seja mais fácil de ser colhido", como pregava o ecologista Gijo Válio, meu pai. 

SÃO MIGUEL ARCANJO ANIVERSARIA HOJE- I


                        O UNIVERSO EM CONSTRUÇÃO 

Depois das propaladas transformações do Planeta, das grandes erupções vulcânicas, das secas, dos invernos rigorosos, das inundações, dos desertos silenciosos... Depois de tudo isso, um dia, a superfície enrijeceu. 
Com as águas recebidas das nascentes e das chuvas, os rios começaram a acordar para a construção dos seus caminhos. 
As pesadas rochas, ajeitando suas formas, se postaram firme e definitivamente no horizonte em edificação. 
Surgiram, então, as planícies, os planaltos e as serras. E eis que, de repente, um verde vivo tomou conta de todo esse espaço e foram-se depositando por sobre ele peixes de várias formas, animais de vários portes, aves de todas as cores e de todos os cantos, arbustos de todo tipo e árvores gigantescas, umas trazendo frutos bons de se comer, outras as mais resistentes madeiras, todas boas para se fazer casas e mobílias e barcos. 
Dominando e denominando tudo aquilo que acontecia de eclosão no planeta, surgiu o homem e este aprendeu a conhecer das utilidades de tudo o que existia. 
Assim foi acontecendo o processo de que fazem parte a Geografia e a História deste pedacinho de chão onde você apoiou seus pés, hoje, ao levantar-se, e durante todos os dias de sua vida; onde você edificou a sua casa, símbolo de proteção e herança a ser deixada para as futuras gerações; onde você sonhou todos os sonhos de uma vida inteira, desde a mais tenra idade até a última consciência, uns sonhos banais e realizáveis, outros até inconfessáveis; onde você entregou às forças regentes do seu destino, logo ao nascer, a sua história pessoal e a humilde condição de simples mortal. 
Este pedacinho de chão onde já habitaram e habitam tantas almas!
Umas delas, tão humildes que acabaram e acabarão sendo carregadas e sopradas pelos ventos do esquecimento com grande facilidade. 
Outras, tão astutas e egoístas, tão fechadas para o novo que até acabaram e acabam atrasando do modo mais sutil o desenvolvimento global do município. 
Algumas mais, em pequena escala, possuidoras de índole solidária e idealista, mas buscando repartir com seu próximo o que nem tem e outras, graças a Deus, progressistas e visionárias. 
Claro que todas elas participando e dando o melhor de sua contribuição a uma História plena de memórias, das quais você e sua família, seja lá como for, vieram construindo e ampliando ao longo do tempo, porque todos ou vivem ou passaram por aqui. 
Muitos mais viverão e passarão por estas plagas. 
Quem disse que São Miguel não tem história? 
Ela começou com seus antepassados e você, são-miguelense, a partir deste momento, pode começar a escrever a continuação dessa História, pois como costumava dizer o escritor e intelectual Sérgio Buarque de Holanda, pai do compositor e cantor Chico Buarque, "a História é um movimento em que não se pode colocar um ponto final".


WALDOMIRO FRANÇA


Faleceu hoje, às 01:55 horas em Itapetininga.
O extinto contava com 74 anos de idade, era filho de Joaquim Martinho França e Maria Antonia da Conceição.
Casado com Tereza de Almeida França, deixa os filhos: Miguel Arcanjo, Marco Antonio, Cláudia, Rosa e Miguel Alexandre.
O sepultamento realizar-se-á hoje às 17h no Cemitério Municipal de São Miguel Arcanjo.

Fonte: P. F. Camargo

JOÃO RODRIGUES



Faleceu às 6 horas de hoje, aos 88 anos de idade, em São Miguel Arcanjo.
Viuvo de Francisca Paulino Rodrigues, era filho de Joaquim Braz Rodrigues e Benedita Maria Francisca.
Deixa os filhos: Lázara, Lúcia, Luzia e José Vicente.
O corpo está sendo velado na sala 1 do velório da empresa Camargo de onde sairá para sepultamento no Cemitério São João Batista, em São Miguel Arcanjo, amanhã às 9:00h.

Fonte: P. F. Camargo