CALOTE BILIONÁRIO
Bolsonaro até tem razão quanto à escala industrial das multas: uma análise nas bases oficiais do Ibama mostra que, desde janeiro de 1980 até agosto deste ano, foram aplicadas 603,4 mil penalidades, que somam quase R$ 75 bilhões, em valores atualizados pelo IPCA, o índice oficial da inflação. Desse total, R$ 59,3 bilhões são de multas ativas — ou seja, não foram pagas, nem prescreveram e nem foram anuladas pelo órgão ou pela justiça, até o final de agosto de 2019.
Com o orçamento dos órgãos ambientais em queda livre, a cobrança de multas deve piorar ainda mais. O montante previsto para o Ministério do Meio Ambiente, que era de R$ 6,5 bilhões em 2013 em valores atualizados, agora é de R$ 2,8 bilhões para 2020, de acordo com o projeto de lei orçamentária enviado pelo governo no último dia 30 de agosto. Há, ainda, uma redução crescente de pessoal, causada pelas aposentadorias: o Ibama hoje tem um déficit de 2,5 mil funcionários, e não há previsão de concurso público para o preenchimento dessas vagas.

Na última sexta-feira, uma medida provisória do presidente alterou novamente as regras da conversão de multas. Até então, o autuado pagava o valor com desconto e tinha o compromisso de acompanhar os resultados do projeto que estava apoiando. Com canetada de Bolsonaro (que ainda será apreciada pelo Congresso), basta ao infrator pagar a multa e embolsar o desconto, sem qualquer engajamento no projeto – ou seja, o governo está simplemente abrindo mão do dinheiro, sem contrapartida. A MP também delegou a gestão dos recursos da conversão de multas para um banco oficial, que ainda será indicado (sem licitação), e passou a responsabilidade para escolher os projetos apoiados para o Ministério de Meio Ambiente. Na prática, Salles e Bolsonaro estão tirando o poder do Ibama, do ICMBio e de ONGs do processo – entidades que o ministro e o presidente têm por inimigas.
THE INTERCEPT BRASIL
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