sábado, 11 de agosto de 2012

TEXTO DE ORLANDO PINHEIRO NO R. O. L.:


Minha foto
(novo visual do escritor e
poeta sãomiguelense que
reside em Sorocaba) 
ISSO SEMPRE ACONTECE NOS BAILES DE FIM DE SEMANA.

A função não terminava sem um quebra-pau histórico entre pilarenses, chamados de 'jacus' pelo povo miúdo, acuado e com medo da possibilidade de um boiadeiro de guaiaca e bombacha levar no bico um das meninas toda soltinha dentro de um vestido saco, tendo ao lado um caro fraco e sem força pra brigar. 
Quando menino, vi na passagem entre os anos 50 e 60 essa rivalidade odiosa da juventude são-miguelense e pilarense. Hoje, do alto dos meus cabelos brancos, acabo acreditando que no fundo, a disputa se resumia para ver quem morava em lugar menos feio. Tanto São Miguel Arcanjo e Pilar do Sul, eram na época, de tirar o chapéu... de medo. Saindo do centrinho cascalhado com pedregulho, as ruas da nossa cidade eram contornadas por valetas profundas para escoarem as águas da chuva. Terrenos desertos serviam de potreiro e até para um desaperto qualquer, nem que fosse só pra “pagar o turco”.
Pilar era um pouco pior, por causa dos boiadeiros. Para por fogo na disputa entre as duas cidades rivais, o alfaiate Agenorzinho Vieira quando enchia a cara, subia em cima da mesa de qualquer botequim e recitava: “Plantei abóbra, deu purungo/Prantei cana, deu bambu. São Miguer só dá macuco e Pilar só da Jacu”. Era o estopim da discórdia. A pancadaria começava até a chegada dos dois praças para por fim na pendenga. Quando espichamos um pouquinho mais e fomos para o ginásio, já sabíamos que Pilar do Sul era a “Jaculândia”. Terra dos jacus, ou seja, dos caipiras atrasados que nem jeca tatu! Parecia não ter fim o rosário de desaforo. Mas pensando bem, Pilar do Sul era uma cidade muito feia. Certa feita, no auge de um baile de debutante, a orquestra parou e realizaram no meio do salão um leilão de gado. Depois, para o baile continuar ao odor de estrume de vaca foi difícil.
O tempo passou... Quando ainda galalau, na fanfarra do Nestor estivemos por lá, a cidade feia já estava com as ruas centrais asfaltadas. Nos anos setenta, quando se pensava em realizar uma festa qualquer em São Miguel Arcanjo, já se movimentavam em chamar o maestro Adão com seus soldados da harmonia para aumentar a nossa bandinha desfalcada. Outras vezes, nas festas juninas, iam buscar a Maria Sambeira e seu filho Abel. Maria sambeira cantava samba de roda em repente, sem repetir um tema por uma noite inteira. Outras vezes, o conjunto Music Boys ia pedir ajuda do Nezinho para completar a sua equipe Tinha umas coisinhas que a gente estava dando o braço a torcer. Perigo mesmo era jogar futebol. A gente já descia apanhando toda a extensão da Cooperativa Sul Brasil.
Depois de passada a fase dos políticos de renome como os Jordão, Pilar do Sul fez a cabeça de um turquinho falante para se candidatar a prefeito. Não há de ver que o homem deu um show de administração! Transformou a cidade. Acabou com a pecha de caipirismo, transformando o lugar num centro pecuaristas. Ao terminar sua gestão, indicou o nome do Dr. Francisco, um dos sócios do Hospital Vera Cruz de Sorocaba, o qual acabou montando um núcleo hospitalar psiquiátrico naquela cidade. Dr. Francisco deu continuidade ao organograma estabelecido pelo seu antecessor, o Antonio José Ayub, nosso conhecido Toninho Turco e ainda injetou idéias novas. Na segunda volta do Toninho à prefeitura, Pilar do Sul já era outra cidade. Ele, junto com outro turco arrojado, o João Marum, prefeito de Salto de Pirapora, rasgaram sem licitação uma estrada ligando os dois municípios. Em conseqüência, passaram anos sem que aquele corte terraplanado recebesse pavimentação, mas diminuiu a distância até Sorocaba. Antes, a viagem levava longas horas e era feita via Piedade. No comecinho dos anos 80, a via recebeu pavimentação, mas ficou tempos sem sinalização até ser reconhecida. Hoje é a estrada principal que liga em pista com terceira faixa, os 40 quilômetros entre Sorocaba e Pilar do Sul. Pilar cresceu a olhos vistos e aproveitou espaço para competir conosco na produção de uvas finas.
Em 1977 os prefeitos Luiz Gonzaga Albach (este afilhado político do Paulo Maluf) e Antonio José Ayub (patrício do governador) conseguiram tirar do papel um projeto emperrado no Proerd do DER (Projetos de Estradas, Rodovias e Desenvolvimento) há mais de 20 anos. Só então foi asfaltado os 35 quilômetros de lama em tempo de chuva. E essa rodovia que hoje está necessitando de uma força política convincente para melhorá-la. Recentemente, em visita à UfsCar em Sorocaba, o governador eleito Geraldo Alkmim acenou a possibilidade da duplicação da pista da rodovia ligando Sorocaba até o trevo com Pilar do Sul. Para o governador eleito, geográficamente ali se trata de uma região para grande investimento industrial.
E nós? Vamos continuar sendo os “macucos” do poema do Agenorzinho? Não seria o caso de convidar o Zaar de Góes, a família Carvalho, o Toninho Turco, o Dr. Francisco para transferirem o título para nosso município e pleitearem algum cargo eletivo? Chega de ficar ao deus-dará, quando ninguém dá nada e ainda leva o pouco que temos. Acho que jacu agora somos nós... Taí a Reserva que não me deixa mentir.

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