domingo, 14 de abril de 2013

POEMA DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN




OS GREGOS


Aos deuses supúnhamos uma existência cintilante

Consubstancial ao mar à nuvem ao arvoredo à luz

Neles o longo friso branco das espumas o tremular da vaga

A verdura sussurrada e secreta do bosque o oiro erecto do trigo

O meandro do rio o fogo solene da montanha

E a grande abóbada do ar sonoro e leve e livre

Emergiam em consciência que se vê

Sem que se perdesse o um-boda-e-festa do primeiro dia -

Esta existência desejávamos para nós próprios homens

Por isso repetíamos os gestos rituais que restabelecem

O estar-ser-inteiro inicial das coisas -

Isto nos tornou atentos a todas as formas que a luz do sol conhece

E também à treva interior por que somos habitados

E dentro da qual navega indicível o brilho.



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